Uma investigação jornalística interrogou ex-companheiros de cela de Lula nos 31 dias que passou na prisão (tempo curto, mas longo demais para seus desejos sexuais, por sinal) e estabeleceu que havia mesmo um militante do Movimento de Emancipação do Proletariado (ou MEP) preso ali, de 30 anos, magro e moreno claro, que foi identificado como João Batista dos Santos, um ex-metalúrgico de São Bernardo. João não quis confirmar nem negar que tenha sofrido tentativa de estupro, e fez declarações evasivas mas reveladoras à imprensa. Disse que é convertido a uma religião que não lhe permite mentir.
"O que faz alguém que se ocupa da lógica? Lembra que uma religião que impede alguém de mentir certamente não o impede de dizer a verdade — ao contrário: que eu saiba, todas estimulam tal prática. Assim, notem:
1 - Se o episódio não aconteceu, e Batista afirmasse ter acontecido, então ele estaria mentindo, o que sua religião proíbe;
2 - se o episódio não aconteceu, e Batista negasse ter acontecido, estaria dizendo a verdade, o que sua religião permite;
3 - se o episódio aconteceu, e Batista afirmasse ter acontecido, estaria dizendo a verdade, o que sua religião permite;
4 - se o episódio aconteceu, e Batista negasse ter acontecido, estaria mentindo, o que sua religião proíbe.
Prestem atenção à hipótese 2: A VERDADE SE ESTABELECERIA, e todos sairiam bem na fita: a) Lula, que, então, estaria livre da suspeita; b) ele próprio, que não carregaria na memória um evento desagradável; c) sua religião, que não teria sido desrespeitada.
No caso da hipótese 3, sua religião continuaria prestigiada, mas a reputação do agora presidente sairia arranhada, e ele próprio teria alguns contratempos.
As hipóteses 1 e 4 são vetadas a Batista: na 4, teria havido a tentativa de molestamento, mas ele preferiria preservar Lula e a si mesmo. Na primeira, ele não preservaria ninguém, nem os fatos. Todos saíram chamuscados.
A indagação óbvia é por que Batista não se fixou no item 2 e pronto. Estaria a resposta nos itens 3 e 4? O fato é que, depreende-se do texto, ele prefere não falar sobre o assunto porque não pode mentir. "
João presta um desserviço à nação brasileira ao omitir os fatos.
No entanto, as coisas continuam como estavam antes: mesmo não havendo evidências ou declarações conclusivas, a verdade pode ser presumida facilmente analisando-se o caso.
(Post scriptum: justifico o título deste post.
Capítulo I - César Benjamin publica o artigo
Capítulo II - Assessoria presidencial nega discretamente
Capítulo III - Paulo de Tarso Santos diz que estava no almoço e não se lembra da presença de Benjamin, nem confirma que Lula fez o relato
Capítulo IV - Silvio Tendler confirma a presença de Benjamin e confirma que Lula fez o relato, mas diz que era uma piada
Capítulo V - O "menino do MEP" é encontrado, mas recusa-se a dizer se Lula tentou ou não violá-lo
Ou em termos mais literários:
I - Uma revelação chocante; II - Loucura; III - O publicitário; IV - O cineasta; V - O menino)