2.1.10

Quinto capítulo da novela - a vítima é encontrada

Uma investigação jornalística interrogou ex-companheiros de cela de Lula nos 31 dias que passou na prisão (tempo curto, mas longo demais para seus desejos sexuais, por sinal) e estabeleceu que havia mesmo um militante do Movimento de Emancipação do Proletariado (ou MEP) preso ali, de 30 anos, magro e moreno claro, que foi identificado como João Batista dos Santos, um ex-metalúrgico de São Bernardo. João não quis confirmar nem negar que tenha sofrido tentativa de estupro, e fez declarações evasivas mas reveladoras à imprensa. Disse que é convertido a uma religião que não lhe permite mentir.

Creio que o blogueiro Reinaldo Azevedo fez uma análise útil:

"O que faz alguém que se ocupa da lógica? Lembra que uma religião que impede alguém de mentir certamente não o impede de dizer a verdade — ao contrário: que eu saiba, todas estimulam tal prática. Assim, notem:

1 - Se o episódio não aconteceu, e Batista afirmasse ter acontecido, então ele estaria mentindo, o que sua religião proíbe;

2 - se o episódio não aconteceu, e Batista negasse ter acontecido, estaria dizendo a verdade, o que sua religião permite;

3 - se o episódio aconteceu, e Batista afirmasse ter acontecido, estaria dizendo a verdade, o que sua religião permite;

4 - se o episódio aconteceu, e Batista negasse ter acontecido, estaria mentindo, o que sua religião proíbe.

Prestem atenção à hipótese 2: A VERDADE SE ESTABELECERIA, e todos sairiam bem na fita: a) Lula, que, então, estaria livre da suspeita; b) ele próprio, que não carregaria na memória um evento desagradável; c) sua religião, que não teria sido desrespeitada.

No caso da hipótese 3, sua religião continuaria prestigiada, mas a reputação do agora presidente sairia arranhada, e ele próprio teria alguns contratempos.

As hipóteses 1 e 4 são vetadas a Batista: na 4, teria havido a tentativa de molestamento, mas ele preferiria preservar Lula e a si mesmo. Na primeira, ele não preservaria ninguém, nem os fatos. Todos saíram chamuscados.

A indagação óbvia é por que Batista não se fixou no item 2 e pronto. Estaria a resposta nos itens 3 e 4? O fato é que, depreende-se do texto, ele prefere não falar sobre o assunto porque não pode mentir. "

Um detalhe não irrelevante é que João Batista dos Santos ganhou indenização há três anos por ter sido preso na ditadura, o que tem possibilidade de representar um meio de retaliação caso ele confirmasse ter sido abordado por Lula.

João presta um desserviço à nação brasileira ao omitir os fatos.
No entanto, as coisas continuam como estavam antes: mesmo não havendo evidências ou declarações conclusivas, a verdade pode ser presumida facilmente analisando-se o caso.

*

(Post scriptum: justifico o título deste post.
Capítulo I - César Benjamin publica o artigo
Capítulo II - Assessoria presidencial nega discretamente
Capítulo III - Paulo de Tarso Santos diz que estava no almoço e não se lembra da presença de Benjamin, nem confirma que Lula fez o relato
Capítulo IV - Silvio Tendler confirma a presença de Benjamin e confirma que Lula fez o relato, mas diz que era uma piada
Capítulo V - O "menino do MEP" é encontrado, mas recusa-se a dizer se Lula tentou ou não violá-lo

Ou em termos mais literários:
I - Uma revelação chocante; II - Loucura; III - O publicitário; IV - O cineasta; V - O menino)

César Benjamin justifica seu timing

Algumas pessoas (entre eles os hipócritas habituais) acusaram César Benjamin de escrever o artigo por razões políticas, o que explicaria ele ter publicado seu relato somente agora - presumivelmente porque o ano eleitoral se aproximava. César Benjamin então redigiu outro texto redarguindo:

"
DEIXO de lado os insultos e as versões fantasiosas sobre os “verdadeiros motivos” do meu artigo “Os Filhos do Brasil”. Creio, porém, que devo esclarecer uma indagação legítima: “por quê?”, ou, em forma um pouco expandida, “por que agora?”. A rigor, a resposta já está no artigo, mas de forma concisa. Eu a reitero: o motivo é o filme, o contexto que o cerca e o que ele sinaliza.

Há meses a Presidência da República acompanha e participa da produção desse filme, financiado por grandes empresas que mantêm contratos com o governo federal.
Antes de finalizado, ele foi analisado por especialistas em marketing, que propuseram ajustes para torná-lo mais emotivo.

O timing do lançamento foi calculado para que ele gire pelo Brasil durante o ano eleitoral. Recursos oriundos do imposto sindical -ou seja, recolhidos por imposição do Estado- estão sendo mobilizados para comprar e distribuir gratuitamente milhares de ingressos. Reativam-se salas pelo interior do país e fala-se na montagem de cines volantes para percorrerem localidades que não têm esses espaços. O objetivo é que o filme seja visto por cerca de 5 milhões de pessoas, principalmente pobres.

Como se fosse pouco, prepara-se uma minissérie com o mesmo título para ser exibida em 2010 pela nossa maior rede de televisão que, como as demais, também recebe publicidade oficial. Desconheço que uma operação desse tipo e dessa abrangência tenha sido feita em qualquer época, em qualquer país, por qualquer governante. Ela sinaliza um salto de qualidade em um perigoso processo em curso: a concentração pessoal do poder, a calculada construção do culto à personalidade e a degradação da política em mitologia e espetáculo. Em outros contextos históricos isso deu em fascismo.

O presidente Lula sabe o que faz. Mais de uma vez declarou como ficou impressionado com o belo “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore, que narra o impacto dos primeiros filmes na mente de uma criança. “O Filho do Brasil” será a primeira -e talvez a única- oportunidade de milhões de pessoas irem a um cinema. Elas não esquecerão.

Em quase oito anos de governo, o loteamento de cargos enfraqueceu o Estado. A generalização do fisiologismo demoliu o Congresso Nacional. Não existem mais partidos. A política ficou diminuída, alienada dos grandes temas nacionais. Nesse ambiente, o presidente determinou sozinho a candidata que deverá sucedê-lo, escolhendo uma pessoa que, se eleita, será porque ele quis. Intervém na sucessão em cada Estado, indicando, abençoando e vetando. Tudo isso porque é popular. Precisa, agora, do filme.

Embalado pelas pré-estreias, anunciou que “não há mais formadores de opinião no Brasil”. Compreendi que, doravante, ele reserva para si, com exclusividade, esse papel. Os generais não ambicionaram tanto poder. A acusação mais branda que tenho recebido é a de que mudei de lado. Porém os que me acusam estão preparando uma campanha milionária para o ano que vem, baseada em cabos eleitorais remunerados e financiada por grandes grupos econômicos. Em quase todos os Estados, estarão juntos com os esquemas mais retrógrados da política brasileira. E o conteúdo de sua pregação, como o filme mostra, estará centrado no endeusamento de um líder.

Não há nada de emancipatório nisso. Perpetuar-se no poder tornou-se mais importante do que construir uma nação. Quem, afinal, mudou de lado? Aos que viram no texto uma agressão, peço desculpas. Nunca tive essa intenção. Meu artigo trata, antes de tudo, de relações humanas e é, antes de tudo, uma denúncia do círculo vicioso da extrema pobreza e da violência que oprime um sem-número de filhos do Brasil. Pois o Brasil não tem só um filho.

Reitero: o que escrevi está além da política. Recuso-me a pensar o nosso país enquadrado pela lógica da disputa eleitoral entre PT e PSDB. Mas, se quiserem privilegiar uma leitura política, que também é legítima, vejam o texto como um alerta contra a banalização do culto à personalidade com os instrumentos de poder da República. O imaginário nacional não pode ser sequestrado por ninguém, muito menos por um governante.

Alguns amigos disseram-me que, com o artigo, cometi um ato de imolação. Se isso for verdadeiro, terá sido por uma boa causa."
Extra - Quem é César Benjamin?

É um cientista político, jornalista, editor e político nascido em 1954. Cofundou o PT, que deixou em 1995, chegando a coordenar a campanha de Lula em 1989; chegou a se filiar ao PSOL e se candidatar como vice-presidente na chapa de Heloísa Helena, mas em pouco tempo se desfiliou do partido. Trabalha como colunista da Folha de São Paulo e editor da Editora Contraponto. Em entrevista em 2005, disse que saiu do PT por perceber que havia financiamento ilegal na campanha de 1994 e que a liderança do partido era desonesta: "
Uma coisa é o partido ter um líder que é honesto, honrado. Então, quem quer ser picareta fica meio acuado. Pode até querer ser picareta, mas não é a regra. Outra coisa é você estar num ambiente em que veio de cima o exemplo."

1.1.10

Por que é que o artigo seria verdadeiro?

Ora, o que o artigo relata é verdadeiro porque foi confirmado por outros indivíduos.
Primeiro o publicitário Paulo de Tarso Santos (que, aliás, tem contratos milionários de publicidade com o governo) confirmou o almoço descrito, embora "não confirme" que César Benjamin estava lá. Subsequentemente, o renomado cineasta Silvio Tendler confirmou o almoço, confirmou a presença de César Benjamin e confirmou que Lula relatou a tentativa de estupro. Entretanto, disse que era uma piada...
O que ele disse foi que se tratou de “uma brincadeira como outras 300″ que Lula fazia regularmente. “Não tinha nada do tom dramático que ele [César Benjamin] quer dar. O cara deve estar muito ressentido para sacar isso com 30 anos de atraso.” Tendler disse que todos estavam rindo e que a piada tinha como objetivo "sacanear" um americano que estava presente no almoço.

Então os fatos estão definidos. Esclareça-se que o artigo afirmava que Lula disse ter tentado o estupro; não acusava o presidente do ato. E a fala de Lula foi confirmada por outras fontes, sendo, portanto, um fato tido como verdadeiro pelas noções estabelecidas. Agora que se definiu que Lula realmente disse o que se afirmava, resta discutir se era um relato de um evento que realmente ocorreu.

Nesse ponto há muito menos espaço para dúvidas. Não há circunstância em que um estupro como contou Lula seja engraçado; é fortemente inverossímil que o tal cineasta tenha guardado na memória por anos e anos uma piada "como outras trezentas" que Lula contou; e é bom relevar outro trecho do artigo de Benjamin:

O marqueteiro americano me cutucava, impaciente, para que eu traduzisse o que Lula falava, dada a importância do primeiro encontro. Eu não sabia o que fazer. Não podia lhe dizer o que estava ouvindo. Depois do almoço, desconversei: Lula só havia dito generalidades sem importância. O americano achou que eu estava boicotando o seu trabalho. Ficou bravo e, felizmente, desapareceu.

Como se pode ver nos trechos citados anteriormente e nesse outro, Lula estava se dirigindo a César Benjamin, e o americano estava fora da conversa (segundo Benjamin, nem a compreendia). E é claro que a história dessa suposta piada não se encaixa com a mínima plausibilidade na situação que estamos discutindo, o que qualquer pessoa com a mínima inteligência percebe. A explicação de Silvio Tendler não cola; Lula não estava contando uma piada.

César Benjamin, que foi cofundador do PT, se desvinculou do partido pouco depois desse evento, que foi sem dúvida um fator. Benjamin provavelmente tinha princípios que não o permitiam trabalhar com um partido liderado por um bando de ladrões e chefiado por um psicopata.

O artigo e o que revela

Abaixo, um trecho que se destaca no artigo do respeitável César Benjamin. É importante ler o que vem depois; se já tiver lido o artigo, pule-o.

"Lula puxou conversa: "Você esteve preso, não é Cesinha?" "Estive." "Quanto tempo?" "Alguns anos...", desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: "Eu não aguentaria. Não vivo sem boceta".

Para comprovar essa afirmação, passou a narrar com fluência como havia tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara detido. Chamava-o de "menino do MEP", em referência a uma organização de esquerda que já deixou de existir. Ficara surpreso com a resistência do "menino", que frustrara a investida com cotoveladas e socos.

Foi um dos momentos mais kafkianos que vivi. Enquanto ouvia a narrativa do nosso candidato, eu relembrava as vezes em que poderia ter sido, digamos assim, o "menino do MEP" nas mãos de criminosos comuns considerados perigosos, condenados a penas longas, que, não obstante essas condições, sempre me respeitaram."


O texto, se verdadeiro (e não há por que supor que não seja), formenta a suspeita pessoal que eu venho tendo: de que Lula seja psicopata, ao menos em algum grau. Como bem sabem os psiquiatras, que podem explicar muito melhor do que a minha pessoa, um traço característico dos psicopatas é relatar seus feitos aos outros sem arrependimento algum (os psicopatas são incapazes de sentir compaixão). Foi precisamente isto o que fez Lula naquele jantar. Não sentia remorsos ou culpa e contou entretidamente o que fez, além de relatar que não compreendia a resistência do estuprado (os psicopatas não têm empatia, ou seja, não sentem eles próprios uma parte do sofrimento do próximo, como sentimos nós outros; veem as outras pessoas como objetos e absoluta e rigorosamente não se importam com os sentimentos delas). E esse episódio coroa uma longa lista de pistas que me fazem ver Lula como um psicopata (pistas que remontam ao passado dele como sindicalista), embora eu jamais possa vir a saber com certeza indubitável.

Como não há provas inquestionáveis de que Lula cometeu o estupro, a imprensa fez pouca cobertura sobre o assunto. E está certa; não deveria, com esse nível de evidências. Lula e seus assessores, calculadamente, quase não reagiram ao artigo; simplesmente chamaram de loucura e, vejam só, coisa de psicopata, e deixaram para lá. Se processassem o articulista ou fizessem algo nesse nível, mais detalhes viriam à tona e a imprensa teria o dever de noticiar o caso, e a população seria informada do relato. A assessoria permaneceu em silêncio para que a imprensa permanecesse em silêncio.

No entanto, se o artigo fosse totalmente mentiroso, não tendo qualquer fundamento na realidade, Lula poderia processar o caluniador sem sequelas; como Benjamin não teria qualquer prova, o caso só seria noticiado em pequenas notas na imprensa e não teria grande relevância. Assim sendo, na hipótese de que o artigo é falso, a reação da assessoria é bastante estranha.

Não obstante, com as evidências que há em favor da veracidade do artigo é muito difícil crer que não seja verdadeiro, e este blog tem o objetivo de divulgá-lo ao máximo, PARA QUE A POPULAÇÃO SEJA INFORMADA do que fez Lula. Um objetivo quixotesco, é verdade, mas não deixará de dar uma modesta contribuição aos brasileiros.